|
Os bólidos intolerantes da Fórmula 1 contemporânea
Parte II - Estrangulando a aderência
mecânica
Como as restrições da FISA/FIA a partir de 1993 favoreceram
o desenvolvimento aerodinâmico
em detrimento à aderência de origem mecânica.
E como isso afetou negativamente as disputas.
| Texto:
Juliano "Kowalski" Barata - Fotos: créditos
individuais |
“Quanto
menos aderência houver, mais difícil será a
pilotagem e mais talento será necessário para pilotar
o carro.”
São
palavras de Max Mosley, proferidas há exatos onze anos, em
uma conferência que apresentava as regras para a temporada
de 1998 da Fórmula 1. Sob esta ótica, foram introduzidos
os retrógrados pneus sulcados à categoria –
sem que nenhuma alteração de peso fosse imposta ao
desenvolvimento aerodinâmico dos monopostos. Como não
poderia deixar de ser, as questões de segurança foram
incorporadas ao argumento: “apesar de algumas pessoas
duvidarem disso, os engenheiros não possuem dúvidas:
a energia de um impacto é diretamente proporcional à
aderência gerada pelos pneus.”

Será que Max Mosley estava pensando nesta época romântica
da Fórmula 1 ao atacar a aderência mecânica?
Será que ele não se esqueceu de um detalhe "insignificante"
chamado desenvolvimento aerodinâmico ?
Max
apostou na intuição e errou – seu raciocínio
estava incompleto. Sim, em última instância, toda a
aderência disponível, seja ela de origem mecânica
ou aerodinâmica, é dependente direta
e exclusivamente dos pneus. São apenas eles que literalmente
aderem ao asfalto, e esta interação com o
solo gera as forças e torques que permitirão a movimentação
e controle do veículo. Mas não ter considerado estas
duas fontes diferentes do grip foi um equívoco gravíssimo.
Avisos
não faltaram. Ainda em 1997, Eddie Irvine e Johnny Herbert
declararam ao jornalista Byron Young respectivamente, “é
a aerodinâmica que está arruinando as corridas”
e “reduzir o downforce é uma coisa que ajudaria
a melhorar o espetáculo”. Note, a chave do enigma
já era mencionada abertamente há mais de dez anos,
a quem quisesse escutar. A FIA não estava interessada em
ouvir.
É
simples e sabido há décadas. As diferenças
fundamentais entre estas duas fontes de aderência, e que foram
ignoradas, consistem no seguinte: o grip de origem aerodinâmica
cresce exponencialmente com o aumento da velocidade (ao quadrado,
para ser mais preciso), e o de origem mecânica não
sofre perturbação com a proximidade nose-to-tail
entre dois ou mais monopostos.

Ayrton Senna já havia
utilizado esta artimanha para levar Nigel Mansell ao erro na decisão
do título de 1991, no autódromo de Suzuka: o inglês
mordeu a isca, manteve-se perto demais na entrada da primeira variante,
perdeu pressão aerodinâmica, exagerou na manobra de
correção, e saiu da pista.
Bingo.
É justamente neste par de fatores que reside o erro de Mosley
em seu ataque à aderência mecânica: pelo bem
do automobilismo, ela deveria ser preservada e estimulada a todo
custo. Mas não: o inocente foi levado à cruz, e um
monstro foi criado. Agora, relendo as citações do
dirigente que abriram a matéria, fica fácil confirmar
o grau de ingenuidade de suas premissas: os carros preservaram ou
aumentaram sua velocidade em curvas, e manter-se próximo
ao rival em um ataque jamais esteve tão difícil. Como
veremos posteriormente, a FIA têm remado duro nos últimos
tempos para recuperar o tempo perdido, e tomou decisões interessantes
para corrigir o passado equivocado. Antes tarde do que nunca.
Conforme
mencionado na primeira parte desta série, as alterações
mais graves feitas pela FIA foram a redução da largura
dos pneus (1993), a introdução dos sulcos nos mesmos
e o estreitamento das bitolas, ou largura dos eixos, em 2 centímetros
(1998).
Agora,
iremos aprofundar um pouco mais estas alterações para
que suas conseqüências sejam melhor compreendidas.
|