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De
qualquer forma, a intenção da FIA era dificultar o
trabalho dos pilotos a qualquer custo, e se até mesmo as
equipes de ponta tinham dificuldades, havia um sucesso teórico
no objetivo. Mas infelizmente, as imposições partiram
de premissas equivocadas sobre o quê seria necessário
para aumentar a importância do fator humano, e com isso atacaram
o campo da aderência mecânica: em poucos anos, estreitaram
os pneus traseiros em três polegadas (posteriormente ainda
seriam sulcados) e as bitolas dos monopostos em 2 centímetros.
O argumento de Max Mosley se resumia a questões de segurança,
uma grande falácia: não se torna um carro mais seguro
reduzindo sua controlabilidade, muito pelo contrário. E nenhuma
justificativa seria suficiente para ocultar este grave equívoco.
Mais
grave,
as dezenas de restrições da FISA/FIA deixaram os engenheiros
de mãos quase atadas no que se refere à busca de soluções
criativas na parte mecânica, o que escambou de vez o investimento
das equipes para o dispendioso e complexo campo da aerodinâmica.
E dentro desta área, ao se restringir cada vez mais os difusores
do assoalho e as dimensões das asas – buscando-se arrefecer
o desenvolvimento – o efeito obtido foi o reverso. Isso criou
um estímulo incontrolável para a invenção
de apêndices secundários, resultando nestes carros
horríveis e deformados que vemos atualmente. Foi a melhor
alternativa disponível aos engenheiros, que sempre trabalham
de forma a obter máxima vantagem dentro (às vezes
fora) do regulamento e suas brechas lógicas.

Foto
Alistair Wilson / Edição Mulsanne
Qualquer
pequeno deslize logístico ou técnico durante o buraco
negro que é o processo de desenvolvimento aerodinâmico
de um Fórmula 1 representa fracasso total atualmente, não
importando a qualidade do restante do conjunto. Não há
fator de compensação. O Jaguar R3 (2002) e o Honda
RA107 (2007) foram dois casos recentes e emblemáticos. Claro,
devemos considerar a evolução e o refinamento técnico
inerente à categoria, mas as imposições feitas
ao regulamento só potencializaram as coisas.
Pior
que a estética, o excesso de desenvolvimento e dependência
aerodinâmica prejudicou muito a proporção em
relação à já restringida aderência
mecânica. De maneira tal que as disputas por posições
– quando os bólidos estão próximos e
o fluxo aerodinâmico é perturbado – se tornaram
difíceis a ponto dos carros precisarem ficar mais distantes
uns dos outros. Atualmente, os monopostos deixam um enorme rastro
de turbulência para trás, e esta não somente
impede os rivais de permanecerem próximos em trechos sinuosos,
como também diminui o efeito “vácuo” –
a redução de resistência ao vento relativo para
quem está imediatamente atrás, que conseqüentemente
permite maior velocidade do atacante em retas.
Os
tiros saíram pela culatra por mais de uma década,
um após o outro. Alain Prost, de maneira quase profética,
declarou em Janeiro de 1993 à revista francesa Auto Hebdo
“os regulamentos não deveriam ser feitos por dirigentes
da FISA e da FOCA, que nunca se sentaram em um carro de corrida
(...) a Fórmula 1 necessita de uma autoridade que se oponha
ao poder do dinheiro”. O então tri-campeão
quase teve sua super-licença cassada.
Após
quinze anos de deslizes, a FIA finalmente atingiu o alvo ao efetivar
o banimento do controle de tração e o sistema de assistência
ao freio-motor, cujas conseqüências práticas e
positivas veremos no próximo capítulo. O sucesso foi
obtido ao se unificar o modelo da centralina (ECU), unidade eletrônica
que gerencia e/ou monitora todos os sensores e componentes mecânicos
dos monopostos, incluindo os motores. Assim, não haveriam
mais controles de tração escondidos na programação
das unidades de cada equipe, artimanha que trouxe o fracasso da
proibição anterior do recurso (de 1994 a 2001).

1997.
Época na qual o controle de tração era, abre
aspas, proibido, fecha aspas. Foto de www.motorshots.com
Mas
nem tudo é perfeito. As centralinas serão fornecidas
até 2010 por uma parceria entre a Microsoft, e inexplicavelmente,
a McLaren Electronic Systems; divisão da equipe de Woking
cuja função é auto-explicativa. Como já
era de se esperar, isso gerou protestos por parte de muitas equipes
rivais, que acusam vantagem anti-esportiva do time de Ron Dennis,
recentemente envolvido em um caso de espionagem.
Acompanhe
nas próximas partes uma análise mais aprofundada dos
principais fatores que têm transformado os monopostos de Fórmula
1 em máquinas tão intolerantes de quinze anos para
cá, e como as restrições introduzidas pela
FIA se relacionam com isso – para o mal e, às vezes,
para o bem.
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