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Os bólidos intolerantes da Fórmula 1 contemporânea
Parte I - Introdução
Como as restrições da FISA/FIA a partir de 1993 favoreceram
o desenvolvimento aerodinâmico
em detrimento à aderência de origem mecânica.
E como isso afetou negativamente as disputas.
| Texto:
Juliano "Kowalski" Barata - Fotos: créditos
individuais |
A
estréia do campeonato de 2008 da Fórmula 1 trouxe
sorrisos largos aos apaixonados mais ortodoxos. As escorregadas
de traseira nas saídas de curvas lentas e de média
velocidade estão de volta, bem como as frenagens imprecisas,
os contra-esterços nos volantes e a necessidade de moderação
no controle dos pedais – até mesmo dos freios. A categoria
ficou mais visceral, não há dúvidas, ainda
que a ressalva do asfalto sujo, quente, e cheio de faixas pintadas
do circuito australiano precise ser feita aos românticos mais
exaltados.

Foto:
Angry Triangles
Os
monopostos tornaram-se extremamente temperamentais, e felizmente
mais dependentes do controle humano, mas ainda há áreas
controversas onde melhoramentos precisam ser feitos – o que
inclui o combate a algumas medidas infelizes tomadas pela própria
FIA/FISA nos últimos anos.
A
margem de controlabilidade dos carros frente à condução
feita no limite tem se tornado cada vez mais estreita, e ao contrário
do que o senso comum indica, isso não necessariamente é
algo bom sob todas as circunstâncias. Atualmente por exemplo,
os pneus e as bitolas (largura dos eixos) estreitas somadas ao excesso
de dependência da chamada aderência aerodinâmica
tornam a pilotagem em disputa de posições extremamente
difícil, nervosa, e limita a criatividade dos pilotos por
conta de um equipamento facilmente perturbável pela presença
de outro bólido. Além disso, para 2008 são
esperados muitos erros, principalmente em caso de chuva, mas por
quê ninguém espera mais disputas head-to-head
entre os carros? A resposta está neste parágrafo –
e infelizmente nos acostumamos à “fórmula-comboio”,
onde a norma das ultrapassagens em pista é baseada no erro
adversário.
Como
chegamos a este ponto? Vamos viajar quinze anos rumo ao passado.

O
Williams FW14 que deu o título de pilotos a Nigel Mansell.
Definido por Ayrton Senna como "uma máquina de outro
planeta".
Após
a temporada de 1992, época crítica da evolução
tecnológica na F-1 materializada no Williams FW14 e sua complexa
suspensão ativa (reativa para os mais detalhistas), a FISA
impôs gradualmente restrições mais severas de
ordem mecânica, aerodinâmica e de proporções
nas medidas dos carros. A meta era equalizar o quão possível
a categoria, restringindo a busca tecnológica desenfreada
e dificultando o trabalho dos pilotos – não somente
no sentido das assistências eletrônicas, cujo banimento
inclusive foi introduzido e mal sucedido, mas também atribuindo
características aos monopostos que os tornassem difíceis
de serem guiados. Ao final deste longo processo, o que todos testemunharam
foram tentativas sucessivas e frustradas de se aumentar a importância
do papel do ser humano frente ao fator equipamento. E esse fracasso
teve um preço.
A
partir de então, o comportamento dos bólidos de Fórmula
1 se tornou cada vez mais aquilo que os pilotos descrevem como unforgiving
– traduzindo grosso modo, “intolerante”. Sua principal
característica é a quebra do limite de aderência
apresentada ao condutor de maneira sucinta, brusca, praticamente
sem avisos prévios. Não necessariamente são
carros temperamentais, e há pequena senão nenhuma
margem de sucesso na recuperação de seu controle em
caso de desgarramento. A amplitude de controlabilidade é
o que diferencia um bólido temperamental de um intolerante,
separando em um exemplo abstrato, o Lotus 49 (1967) de qualquer
bólido da geração “efeito-solo”
(final dos anos 70 e início dos 80).

Escorregando
nervosamente em derrapagens controladas, os "charutinhos"
dos anos 60 eram temperamentais, mas controláveis.
O oposto pode ser dito sobre a era efeito-solo: carros aparentemente
estáveis, que perdiam toda a aderência em um piscar
de olhos.
Se ambos fossem seguros, a bordo de qual deles você disputaria
a entrada de uma curva com um rival às últimas conseqüências?
O
Williams FW16 e o Benneton B195, de 1994 e 95 respectivamente, eram
carros que reuniam o pior dos dois lados: eram nervosos e intolerantes,
gerando frustração e reclamações por
parte de Senna, e grande admiração de Gerhard Berger
por Schumacher. O FW16 só foi melhorado razoavelmente alguns
meses após o falecimento de Ayrton, quando a variante "B"
foi adotada, com entre-eixos mais longo e mudanças estruturais.
E quanto ao caso da Benetton, depois de testar o B195 para adaptar-se
ao modelo do próximo ano, o austríaco ficou surpreso
como Michael conseguiu ser bi-campeão a bordo de um monoposto
tão imprevisível e praticamente incontrolável,
principalmente sobre superfícies irregulares.
Particularidades
à parte, tratam-se de duas equipes de ponta com muitos anos
de experiência, cujo último objetivo seria produzir
uma “cadeira elétrica” a seus pilotos. Mas frente
ao caos de sucessivas alterações no regulamento técnico
e o curto prazo entre as temporadas, não foram capazes de
desenvolver um conjunto sólido (apesar de veloz) nestas ocasiões.
Então,
imagine o estrago que toda essa bagunça fez em times com
orçamento curto e staff modesto: desde 1990, nada
menos que 28 equipes pediram as contas e saíram da Fórmula
1. Sem mencionar os acidentes que decorreram indiretamente desta
desordem, como o do português Pedro Lamy em treinos no autódromo
de Silverstone, em 1994. Seu Lotus estava sendo testado com as novas
modificações impostas pelas regras, e naquele trágico
ano em particular, as mudanças foram exigidas praticamente
a cada corrida.
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