| Ao
volante do Mégane
De
macacão e capacete vestidos, havia chegado a hora da verdade.
Mesmo sendo uma pessoa com um certo sangue frio, era impossível
não sentir ansiedade enquanto os assistentes do Manzini ajustavam
a distância do banco e amarravam o cinto de quatro pontas
em meu corpo. A cabeça estava concentrada, longe dali, pensando
nas tomadas para as curvas, e que deveria ser tão rápido
o quanto podia, mas sem me expor a qualquer risco.

Em
suma, a direção deveria ser suave e a tocada, crescente;
exatamente como foi instruído. Ao meu lado, estava o instrutor
e piloto profissional
Allan Hellmeister, para controlar o meu ritmo e prevenir qualquer
bobagem de minha parte. Lembre-se, estamos falando de um curso de
direção defensiva e esportiva com apenas um dia de
duração. Não se trata do curso extenso que
forma um piloto com carteirinha federada, também oferecido
pelo Centro de Pilotagem Roberto Manzini.
Olhei
bem para os pedais. Acariciei-os com os pés para sentir a
distância lateral e de profundidade entre o freio e o acelerador.
Este possuía uma pedaleira, para ficar bem próximo
ao pedal vizinho e facilitar a sincronização nas reduções.
Para fazer o punta-tacco, era necessário somente um movimento
mínimo e lateral do pé. Mas como a velocidade de resposta
do motor, a inércia da transmissão, e o acoplamento
da embreagem eram novidade para mim, decidi deixar a técnica
para lá, ao menos nas primeiras voltas.
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Hora
de engrenar o bicho e sair dos boxes. Sem silenciador, o ronco
do 1.6 16V do Mégane era alto, mas nada ensurdecedor.
Tirar o carro da imobilidade foi fácil, pois o comando
de válvulas aparentava ser original, ou pouca coisa
mais forte: nada de ronco embaralhado nem excesso de gasolina
em marcha lenta. Até porque, trata-se de um
automóvel moderno, com gerenciamento eletrônico
de injeção e ignição de combustível.
Entrei
na Reta Oposta devagar e com giro baixo, para conseguir ouvir
as instruções de Hellmeister. A primeira volta
foi lenta. Me preocupei em desenhar a trajetória ideal,
em observar os cones de referência e sentir o comportamento
e os limites de aderência lateral do Mégane de
maneira progressiva. |
Mas
com uma volta e meia completada, a velocidade maior trouxe um dilema
que precisava ser rapidamente resolvido: era impossível executar
as reduções de marcha nas freadas mais exigentes sem
evitar um pequeno tranco no sistema de transmissão. Não
somente era algo desagradável, também poderia desequilibrar
o automóvel num momento crítico em ritmo mais forte.
E acaso eu soltasse lentamente o pedal de embreagem a fim de evitar
este tranco, não conseguiria fazer a redução
seguinte a tempo.
O
punta-tacco mostrou-se necessário para executar as
reduções de marcha com velocidade e suavidade,
pois a técnica sincroniza o giro do volante do motor
com a transmissão; e o trabalho dos anéis sincronizados
é reduzido ao mínimo.
A
concentração, aliada à necessidade, nos
transforma em seres adaptáveis. Após cinco ou
seis curvas já conseguia executar a técnica
com alguma decência. Não que eu nunca a tivesse
feito, mas cada equipamento responde de uma maneira, e era
o meu primeiro contato com um Renault Mégane. Com o
dilema resolvido, eu já estava bem mais à vontade
para aumentar o ritmo de maneira segura. Chegou a hora da
verdade! |

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Curva-a-curva
no Autódromo: Anel Externo!
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O
Mégane está em quinta marcha, a pouco mais de 5000
giros no final da reta dos boxes. A velocidade deveria estar entre
170 e 180 quilômetros por hora, confesso que o velocímetro
foi um instrumento ignorado. Em
um suave aclive, as faixas que demarcam as posições
no grid passam como borrões sob o assoalho do automóvel,
assim como a linha de chegada. O terreno vai ficando nivelado, um
sinal de que as duas placas de distância (100 e 50 metros)
para a primeira perna do "S"
do Senna (mapa)
estão logo adiante. Elas se aproximam rapidamente. O pé
direito ainda está cravado no acelerador; o lado emotivo
do cérebro quer aliviar a pressão no pedal, mas o
lado calculista sabe que há distância suficiente.
A
sessenta metros, o duelo cerebral é resolvido: a frenagem
é executada de acordo com o cone. É a mais intensa
de todo o circuito. Quando as pinças agarram os discos pra
valer, o nariz do Mégane abaixa um tanto – quase nada
se compararmos com os carros de rua. Duas reduções
de marcha, dois punta-taccos. Na última redução,
a curva à
esquerda já está iniciando, e por isso é
importante que a marcha engrene bem suavemente. Algumas vezes eu
obtive sucesso, em outras ocasiões nem tanto. Paciência.
A
topografia e o muro do lado interno limitam muito a visão,
resultando em uma entrada de curva quase cega. Só se enxerga
para onde se está indo... quando praticamente já se
está lá! O Renault sai um pouco de frente, e é
preciso um pouco de convencimento no braço para trazê-lo
para dentro, rumo ao ponto de tangência da primeira perna.
Este comportamento "teimoso" é típico de
um carro com tração e motor dianteiros.
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Quando o ponto de tangência é atingido, já
estamos em uma tremenda descida. Daí, uma pegadinha:
deve-se contrariar o senso comum e permanecer do lado de dentro
da pista, até o completo final da primeira perna da
variante. Sem deixar espalhar o carro nem acelerar demais.
Isso
para que o automóvel esteja equilibrado e do lado correto
da pista para atacar a segunda perna do
"S" do Senna, à direita. A descida
deixa os pneus do eixo dianteiro um tanto quanto sobrecarregados.
O resultado desse desequilíbrio é que o carro
sai ainda mais de frente. Reacelero somente após ter
apontado o nariz para dentro, de maneira intencionalmente
tardia e já mirando a curva seguinte (veja a foto ao
lado) e mesmo assim sinto a frente escorregando.
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Consigo
sair com uma velocidade honesta do "S" do Senna e prossigo
de terceira marcha e pé embaixo ao longo da Curva do Sol.
É a variante mais longa, e com o raio mais aberto de todo
o circuito: o Mégane contorna-a tranqüilamente, sobrando
aderência. Toda vez que eu passava ali, pensava: "com
cerca de cem pocotós a mais sob o capô, esta curva
deve se transformar em algo pra lá de eletrizante...".
A
quarta marcha é engrenada na saída da Curva do Sol,
dando continuidade à longa Reta Oposta, que em quase toda
sua extensão é uma suave descida. Ao final dela, estamos
em quinta marcha e a cerca de 160 quilômetros por hora.
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As
duas pernas da Curva do Lago se aproximam velozmente, e as
placas de distância vindo quase como borrões
não me deixam enganar. É uma variante muito
importante, pois faz a ligação entre dois trechos
de alta velocidade: a reta oposta e a Descida do Lago.
Nesta
curva em particular, os pilotos profissionais buscam o limite
extremo, fazendo o automóvel escorregar "pendurado"
nos pneus até a zebra externa. No meu caso, fui politicamente
correto: executei a frenagem cedo, de acordo com o cone (a
aproximadamente 110 metros), seguida por duas reduções
de marcha. Depois, um pequeno intervalo sem ação
nos pedais, e a reaceleração, tão logo
o ponto de tangência foi atingido. Melhor assim.
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A
segunda perna da Curva do Lago tem raio largo, e é feita
de pé embaixo. Sobra um pouco de aderência para o Mégane
por causa da velocidade, mas no finalzinho dá para sentir
que o carro está bem apoiado nos pneus do lado direito.
Já
adentramos na Descida
do Lago, um trecho de reta que começa em descida e termina
em subida, levando ao desafiador Laranjinha. E assim começa
o chamado "miolo" do circuito.
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