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Curvas do Mundo: Parabolica (Monza)
Esta é uma das poucas variantes dos circuitos utilizados atualmente pela F-1 que manteve
seu traçado praticamente intocado durante toda sua existência. Descubra o por quê!

Texto: Juliano "Kowalski" Barata - Fotos e imagens: créditos individuais

O circuito Enzo e Dino Ferrari pode ficar em San Marino, mas a Meca da equipe de Maranello é o Autodromo Nazionale Monza. É para lá que todos os tiffosi peregrinam uma vez ao ano, em uma massa rubra, para prestar suas homenagens aos bólidos da casa com um rigor sagrado. Seus pilotos podem ser de qualquer país, desde que haja o comprometimento de corpo e alma à escuderia italiana. Na vitória e na derrota, na saúde e na doença. Esta é a exigência essencial e quase matrimonial dos tiffosi.

No aspecto do espetáculo, Monza é o Coliseu: grandioso, imponente, um monumento. O local onde seus heróis metálicos de quatro rodas mostram quem manda no pedaço. Mais do que isso, suas longas retas oferecem ao público a mais intensa experiência de testemunhar um motor V12 com os giros no limite máximo de funcionamento. Ou ofereciam, já que a Ferrari deixou de usar a clássica e quase permanente configuração de cilindros há alguns anos na Fórmula 1. Contudo, o amor dos fiéis perdoa as necessidades da equipe e a falta de imaginação dos dirigentes do esporte.

Agora, pulemos o guard-rail. Vamos para o lado de dentro.

Circuito de Monza em 1966, cena do filme Grand Prix.

Dizem que poucas coisas são comparáveis à sensação de se mergulhar naquele verdadeiro túnel de árvores centenárias, que projetam suas imensas sombras sobre o asfalto e transformam a experiência de contornar seus atuais 5.793 metros num jogo alucinógeno de luzes e sombras. Quão rápido? Nas retas, muito próximo da velocidade máxima do automóvel – não importa qual seja.

Alta velocidade média. Estas são as três palavras que melhor definem o circuito de Monza. Obviamente, potência e eficácia aerodinâmica (no sentido do menor arrasto possível) são prioridades máximas no âmbito do equipamento. Mas e quanto ao piloto, aquela pecinha – às vezes problemática – que se instala atrás do volante?

É simples: para estes, os erros custarão muito mais caro. Em variantes de média e média-alta, como as duas pernas da Curva di Lesmo, a Ascari e a Parabolica (clique aqui para ver o mapa), um equívoco equivale não a somente perder tempo em um trecho de tocada relativamente veloz. Significa também perder todo o desenvolvimento posterior – ao longo das compridas retas que as sucedem. Ou seja, um simples erro pode arruinar cerca de 15% de uma volta inteira.

No caso da Curva Parabolica, estrela principal do presente artigo, a coisa adquire grandes proporções. Além de ser uma variante extremamente comprida, ela antecede a reta dos boxes (veja foto) e seus colossais 1.194,40 metros. Somando tudo isso, a Parabolica define direta e indiretamente quase 25% de uma volta. Um quarto! É um trecho inacreditavelmente valioso.

Mas não é só isso. Ao final da reta dos boxes, localiza-se a Variante del Rettifilo, que é simplesmente a curva mais lenta do circuito (uma chicane, a bem da verdade), com uma freada fortíssima e retilínea. Portanto, contornar e principalmente, sair da Parabolica com o máximo de aproveitamento pode equivaler a estar apto para realizar ou defender uma ultrapassagem – e obter êxito nesta tarefa não é fácil.

Ponto de tangência da Curva Parabolica.
Detalhe artístico da Curva Parabolica.
Crédito: Eiichi-Scart

Depois de tanta valorização, qualquer um estaria particularmente nervoso acaso estivesse em um dos boxes de Monza, prestes a entrar em um cockpit de um bólido de corridas. E se o carro em questão fosse uma Ferrari 365 GTB/4 "Daytona" Competizione da equipe ítalo-americana N.A.R.T. de Luigi Chinetti, a coisa adquiriria proporções preocupantes. Trata-se de um monstro potente, pesado e com comandos duros; visceral como um carro de corridas deve ser. O que mais: motor dianteiro V12 4,4L alimentado por seis carburadores duplos Weber 40, tração traseira e transeixo independente, para despejar um haras de 450 cavalos de maneira razoavelmente equilibrada.

Liberte sua imaginação. Vai começar uma brincadeira interessante.

Bomba elétrica de combustível e ignição ligadas, o motor de arranque gira ao toque de um botão. Um rugido anuncia que propulsor foi acionado: a marcha lenta completamente embaralhada resume-se a uma massa sonora ensurdecedora emitida pelos escapes diretos laterais! O cheiro de combustão invade o habitáculo. Vista o capacete e as luvas. Teste o trambulador, sinta a dureza maciça da embreagem e do pedal de freio sem servoassistência. Vá para a pista. Cuidado com o diferencial autoblocante, use o cérebro para acelerar na saída da Variante del Rettifilo. Pneus aquecidos, powertrain dilatado à temperatura ideal, hora de mandar brasa!

Para adoçar e aguçar os sentidos, confira a seguir uma Ferrari Daytona da N.A.R.T. partindo dos boxes de Spa-Francorchamps! Note como o piloto senta-se praticamente sobre o eixo traseiro, no melhor estilo do modelo 250 GTO. E como consolo à tanta pressão, lembre-se dos elogios à estabilidade direcional da 365 GTB/4 em alta velocidade, feitos pelo ex-piloto de Fórmula 1 Dan Gurney enquanto atravessava os Estados Unidos de costa a costa na primeira edição do Cannonball Run.


Abaixo temos a Parabolica representada em sua configuração visual típica dos anos 80 à atualidade. Note: a ilustração é apenas uma representação, sem intenção de precisão absoluta.

Ilustração da Curva Parabolica.

Novecentos e cinqüenta e oito metros de aceleração plena, mais o fato de se vir já lançado da saída veloz da Variante Ascari (veja foto) resultam em garantias suficientes de que o carro estará na quinta marcha em uma rotação elevada, ao final da reta oposta. A quase 240 km/h, a entrada para a Parabolica se aproxima ferozmente.

As placas de frenagem passam como borrões na visão periférica. O terço inicial desta variante será o trecho mais complicado de nossa viagem. A freada é extremamente tardia (círculo 1 na imagem ao lado) e perigosa para os cardíacos de plantão: começa forte e retilínea, mas termina projetando-se para o ponto de tangência.

A transição (2) entre esses dois estágios é uma operação delicada, exige muita precisão: deve-se aliviar suave e progressivamente o pedal de freio conforme começa a se esterçar o volante.

Este tipo de freada é uma técnica conhecida como trail-braking, e feita corretamente, tende a causar um leve sobre-esterço (ou saída de traseira). Motivo: na frenagem, o peso projeta-se para a frente, os pneus traseiros perdem um pouco de aderência e escorregam um pouco. Mas relaxe, há uma preocupação extra.

Num carro de turismo como a Ferrari 365 GTB/4, realiza-se duas ou três reduções de marcha para se entrar na Parabolica a aproximadamente 120 quilômetros por hora. E a última redução certamente ocorrerá após a placa de 50 metros, a meio caminho da zebra interna. Trocando em miúdos: você precisará reduzir uma marcha durante o trail-braking.

Por isso, todo o processo de frenagem e punta-tacco deve ser realizado com perfeição: causar qualquer tranco que desequilibre a dinâmica do automóvel nesse momento tão crítico pode ser perigoso. Tudo realizado com maestria (ou sorte?), a marcha engrena sem causar nenhum solavanco. Ufa! O carro mergulha rumo ao lado interno da curva (3), e mesmo com molas, amortecedores e barras estabilizadoras de competição, a carroceria rola consideravelmente. Deve-se manter uma aceleração sutil e constante por um breve momento, próximo à zebra interna.

Segundo terço, ponto de reaceleração. Também muito difícil e técnico, pois não se vê o final da curva. Se na entrada há um pouco de sobre-esterço por causa do trail-braking, a reaceleração em curva causa um inevitável sub-esterço na saída. Ainda mais em um carro com motor frontal, tal como a 365 GTB/4: mesmo com bloco e cabeçotes de alumínio, o propulsor pesa bastante, e a inércia cobra sua parte.

Acelerar antes do ponto ideal equivale a sair ainda mais de frente, podendo-se pegar a grama e sair da pista. Reacelerando depois, perde-se tempo e velocidade na reta dos boxes. Muitos pilotos usam como referência a zebra interna, levando suavemente o pedal direito ao assoalho instantes antes dela terminar (4).

Ferrari 365 GB/4 da equipe NART, de Luigi Chinetti
Foto: autor desconhecido - edição artística Mulsanne

Leia novamente, suavemente. Você não quer tirar o peso das rodas da frente de uma vez só: a transferência tem de ser suave, progressiva. Não faça nada repentino e imprevisível com o carro, e ele não fará nada de repentino e imprevisível com você.

Se a tangência e o ponto de reaceleração foram 100% precisos, chegará-se ao terço final (5) de pé-embaixo. O automóvel escorregará progressivamente para fora conforme a velocidade aumenta, e permanecerá no limite da aderência mecânica até o raio crescente da curva amenizar o castigo sobre os pneus do lado esquerdo. Daí em diante, serão quase 1200 metros de aceleração plena. Em frente à tribuna principal, o motor V12 berra a quase 8500 giros, e os tiffosi presentes vão à loucura... só não se esqueça da violenta freada para a Variante del Rettifilo ao final deste devaneio!

Hora de trazer a "Daytona" de volta aos boxes. Ao reduzir a velocidade para entrar na garagem, o motor dá algumas engasgadas. Ele gosta de giros altos, e ficou mal-acostumado com as retas de Monza! Para unir o útil ao agradável, você dá uma limpada no excesso dos seis Weber 40 com uma bela acelerada desengrenada. Desligue as chavinhas da ignição e da bomba de combustível: devolva os acionamentos ao proprietário da 365 GTB/4, signore Luigi Chinetti. Um caprichadíssimo spaghetti alla carbonara acompanhado de um despretencioso (mas refrescante) vinho branco frescati aguardam sua chegada à mesa improvisada na garagem. A máxima "cavalo come, cavalo anda..." vale para você também.

E assim termina mais uma edição do Curvas do Mundo, estreando este novo formato com um carro dos sonhos no contorno de cada variante. Espero que vocês tenham gostado da carona. Até a próxima!




Esta crônica é uma homenagem a Luigi Chinetti (17/07/1901 - 17/08/1994).

Dentre seus feitos, foi vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1949 (166 Barchetta), mecânico e co-piloto do
vencedor da Carrera Panamericana de 1951 (modelo 212), e o maior responsável pela introdução da Ferrari nos EUA.
Representou a casa de Maranello tanto no aspecto comercial dos carros de rua (Chinetti Motors Inc) como no mundo
das competições, criando a vencedora equipe North American Racing Team (N.A.R.T.); que deu suporte a pilotos
que então se tornariam lendas norte-americanas, como Phill Hill e Mario Andretti.


A Ferrari 250 LM da equipe N.A.R.T. foi o último cavallino rampante vencedor das 24 Horas de Le Mans, em 1965.



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