| Curvas
do Mundo: Parabolica (Monza)
Esta
é uma das poucas variantes dos circuitos utilizados atualmente
pela F-1 que manteve
seu traçado praticamente intocado durante toda sua existência.
Descubra o por quê!
| Texto:
Juliano "Kowalski" Barata - Fotos e imagens: créditos
individuais |
O
circuito Enzo e Dino Ferrari pode ficar em San Marino, mas a Meca
da equipe de Maranello é o Autodromo Nazionale Monza. É
para lá que todos os tiffosi peregrinam uma vez
ao ano, em uma massa rubra, para prestar suas homenagens aos bólidos
da casa com um rigor sagrado. Seus
pilotos podem ser de qualquer país, desde que haja o comprometimento
de corpo e alma à escuderia italiana. Na vitória e
na derrota, na saúde e na doença. Esta é a
exigência essencial e quase matrimonial dos tiffosi.
No
aspecto do espetáculo, Monza é o Coliseu: grandioso,
imponente, um monumento. O
local onde seus heróis metálicos de quatro rodas mostram
quem manda no pedaço. Mais do que isso, suas longas retas
oferecem ao público a mais intensa experiência de testemunhar
um motor V12 com os giros no limite máximo de funcionamento.
Ou ofereciam,
já que a Ferrari deixou de usar a clássica e quase
permanente configuração de cilindros há alguns
anos na Fórmula 1. Contudo, o amor dos fiéis perdoa
as necessidades da equipe e a falta de imaginação
dos dirigentes do esporte.
Agora,
pulemos o guard-rail. Vamos para o lado de dentro.

Dizem
que poucas coisas são comparáveis à sensação
de se mergulhar naquele verdadeiro túnel de árvores
centenárias, que projetam suas imensas sombras sobre o asfalto
e transformam a experiência de contornar seus atuais 5.793
metros num jogo alucinógeno de luzes e sombras. Quão
rápido? Nas retas, muito próximo da velocidade máxima
do automóvel – não importa qual seja.
Alta
velocidade média. Estas
são as três palavras que melhor definem o circuito
de Monza. Obviamente, potência e eficácia aerodinâmica
(no sentido do menor arrasto possível) são prioridades
máximas no âmbito do equipamento. Mas e quanto ao piloto,
aquela pecinha – às vezes problemática –
que se instala atrás do volante?
É
simples: para estes, os erros custarão muito mais
caro. Em variantes de média e média-alta,
como as duas pernas da Curva di Lesmo, a Ascari e a Parabolica
(clique
aqui para ver o mapa), um equívoco equivale não
a somente perder tempo em um trecho de tocada relativamente
veloz. Significa também perder todo o desenvolvimento
posterior – ao longo das compridas retas que as sucedem.
Ou seja, um simples erro pode arruinar cerca de 15% de uma
volta inteira.
No caso
da Curva Parabolica, estrela principal do presente artigo,
a coisa adquire grandes proporções. Além
de ser uma variante extremamente comprida, ela antecede
a reta dos boxes (veja
foto) e seus colossais 1.194,40 metros. Somando tudo
isso, a Parabolica define direta e indiretamente quase 25%
de uma volta. Um quarto! É um trecho inacreditavelmente
valioso.
Mas
não é só isso. Ao final da reta dos
boxes, localiza-se a Variante del Rettifilo, que é
simplesmente a curva mais lenta do circuito (uma chicane,
a bem da verdade), com uma freada fortíssima e retilínea.
Portanto, contornar e principalmente, sair da Parabolica
com o máximo de aproveitamento pode equivaler a estar
apto para realizar ou defender uma ultrapassagem –
e obter êxito nesta tarefa não é fácil.
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Detalhe
artístico da Curva Parabolica.
Crédito: Eiichi-Scart
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Depois
de tanta valorização, qualquer um estaria particularmente
nervoso acaso estivesse em um dos boxes de Monza, prestes a entrar
em um cockpit de um bólido de corridas. E se o carro em questão
fosse uma Ferrari
365 GTB/4 "Daytona" Competizione da equipe ítalo-americana
N.A.R.T. de Luigi Chinetti, a coisa adquiriria proporções
preocupantes. Trata-se de um monstro potente, pesado e com comandos
duros; visceral como um carro de corridas deve ser. O que mais:
motor dianteiro V12 4,4L alimentado por seis carburadores duplos
Weber 40, tração traseira e transeixo independente,
para despejar um haras de 450 cavalos de maneira razoavelmente equilibrada.
Liberte
sua imaginação. Vai começar uma brincadeira
interessante.
Bomba
elétrica de combustível e ignição ligadas,
o motor de arranque gira ao toque de um botão. Um rugido
anuncia que propulsor foi acionado: a marcha lenta completamente
embaralhada resume-se a uma massa sonora ensurdecedora emitida pelos
escapes diretos laterais! O cheiro de combustão invade o
habitáculo.
Vista o capacete e as luvas. Teste o trambulador, sinta a dureza
maciça da embreagem e do pedal de freio sem servoassistência.
Vá para a pista. Cuidado com o diferencial autoblocante,
use o cérebro para acelerar na saída da Variante del
Rettifilo. Pneus aquecidos, powertrain dilatado à
temperatura ideal, hora de mandar brasa!
Para
adoçar e aguçar os sentidos, confira a seguir uma
Ferrari Daytona da N.A.R.T. partindo dos boxes de Spa-Francorchamps!
Note como o piloto senta-se praticamente sobre o eixo traseiro,
no melhor estilo do modelo 250 GTO. E como consolo à tanta
pressão, lembre-se dos elogios à estabilidade direcional
da 365 GTB/4 em alta velocidade, feitos pelo ex-piloto de Fórmula
1 Dan Gurney enquanto atravessava os Estados Unidos de costa a costa
na primeira edição do Cannonball Run.
Abaixo
temos a Parabolica representada em sua configuração
visual típica dos anos 80 à atualidade. Note: a ilustração
é apenas uma representação, sem intenção
de precisão absoluta.
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Novecentos
e cinqüenta e oito metros de aceleração
plena, mais o fato de se vir já lançado da
saída veloz da Variante Ascari (veja
foto) resultam em garantias suficientes de que o carro
estará na quinta marcha em uma rotação
elevada, ao final da reta oposta. A quase 240 km/h, a entrada
para a Parabolica se aproxima ferozmente.
As placas
de frenagem passam como borrões na visão periférica.
O terço inicial desta variante será o trecho
mais complicado de nossa viagem. A freada é extremamente
tardia (círculo 1 na imagem ao lado)
e perigosa para os cardíacos de plantão: começa
forte e retilínea, mas termina projetando-se para
o ponto de tangência.
A transição
(2) entre esses dois estágios é
uma operação delicada, exige muita precisão:
deve-se aliviar suave e progressivamente o pedal de freio
conforme começa a se esterçar o volante.
Este
tipo de freada é uma técnica conhecida como
trail-braking, e feita corretamente, tende a causar
um leve sobre-esterço (ou saída de traseira).
Motivo: na frenagem, o peso projeta-se para a frente, os
pneus traseiros perdem um pouco de aderência e escorregam
um pouco. Mas relaxe, há uma preocupação
extra.
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Num
carro de turismo como a Ferrari 365 GTB/4, realiza-se duas ou três
reduções de marcha para se entrar na Parabolica a
aproximadamente 120 quilômetros por hora. E a última
redução certamente ocorrerá após a placa
de 50 metros, a meio caminho da zebra interna. Trocando em miúdos:
você precisará reduzir uma marcha durante o trail-braking.
Por
isso, todo o processo de frenagem e punta-tacco deve ser
realizado com perfeição: causar qualquer tranco que
desequilibre a dinâmica do automóvel nesse momento
tão crítico pode ser perigoso. Tudo realizado com
maestria (ou sorte?), a marcha engrena sem causar nenhum solavanco.
Ufa! O carro mergulha rumo ao lado interno da curva (3),
e mesmo com molas, amortecedores e barras estabilizadoras de competição,
a carroceria rola consideravelmente. Deve-se manter uma aceleração
sutil e constante por um breve momento, próximo à
zebra interna.
Segundo
terço, ponto de reaceleração. Também
muito difícil e técnico, pois não se vê
o final da curva. Se na entrada há um pouco de sobre-esterço
por causa do trail-braking, a reaceleração
em curva causa um inevitável sub-esterço na saída.
Ainda
mais em um carro com motor frontal, tal como a 365 GTB/4: mesmo
com bloco e cabeçotes de alumínio, o propulsor pesa
bastante, e a inércia cobra sua parte.
Acelerar
antes do ponto ideal equivale a sair ainda mais de frente, podendo-se
pegar a grama e sair da pista. Reacelerando depois, perde-se tempo
e velocidade na reta dos boxes. Muitos pilotos usam como referência
a zebra interna, levando suavemente o pedal direito ao assoalho
instantes antes dela terminar (4).

Foto:
autor desconhecido - edição artística Mulsanne
Leia
novamente, suavemente. Você não quer tirar
o peso das rodas da frente de uma vez só: a transferência
tem de ser suave, progressiva. Não faça nada repentino
e imprevisível com o carro, e ele não fará
nada de repentino e imprevisível com você.
Se
a tangência e o ponto de reaceleração foram
100% precisos, chegará-se ao terço final (5)
de pé-embaixo. O automóvel escorregará progressivamente
para fora conforme a velocidade aumenta, e permanecerá no
limite da aderência mecânica até o raio crescente
da curva amenizar o castigo sobre os pneus do lado esquerdo. Daí
em diante, serão quase 1200 metros de aceleração
plena. Em frente à tribuna principal, o motor V12 berra a
quase 8500 giros, e os tiffosi presentes vão à
loucura... só não se esqueça da violenta freada
para a Variante del Rettifilo ao final deste devaneio!
Hora
de trazer a "Daytona" de volta aos boxes. Ao reduzir a
velocidade para entrar na garagem, o motor dá algumas engasgadas.
Ele gosta de giros altos, e ficou mal-acostumado com as retas de
Monza! Para unir o útil ao agradável, você dá
uma limpada no excesso dos seis Weber 40 com uma bela acelerada
desengrenada. Desligue
as chavinhas da ignição e da bomba de combustível:
devolva os acionamentos ao proprietário da 365 GTB/4, signore
Luigi Chinetti. Um
caprichadíssimo spaghetti alla carbonara acompanhado
de um despretencioso (mas refrescante) vinho branco frescati aguardam
sua chegada à mesa improvisada na garagem. A máxima
"cavalo come, cavalo anda..." vale para você também.
E assim termina mais uma edição do Curvas do Mundo,
estreando este novo formato com um carro dos sonhos no contorno
de cada variante. Espero que vocês tenham gostado da carona.
Até a próxima!

Esta
crônica é uma homenagem a Luigi Chinetti (17/07/1901
- 17/08/1994).
Dentre seus feitos, foi vencedor das 24 Horas
de Le Mans de 1949 (166 Barchetta), mecânico e co-piloto do
vencedor da Carrera Panamericana de 1951 (modelo 212), e o maior
responsável pela introdução da Ferrari nos
EUA.
Representou a casa de Maranello tanto no aspecto comercial dos carros
de rua (Chinetti Motors Inc) como no mundo
das competições, criando a vencedora equipe North
American Racing Team (N.A.R.T.); que deu suporte a pilotos
que então se tornariam lendas norte-americanas, como Phill
Hill e Mario Andretti.
A Ferrari 250 LM da equipe N.A.R.T. foi o
último cavallino rampante vencedor das
24 Horas de Le Mans, em 1965.
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