| Curvas
do Mundo: Karussell (Nordschleife)
Jackie
Stewart tinha muitas razões para chamar a Nürburgring
Nordschleife de
"Inferno Verde". Veja por quê a Karussell representa
um pedacinho do tridente.
| Texto:
Juliano "Kowalski" Barata - Fotos: créditos
individuais |
Nürburgring
Nordschleife é considerado por muitos pilotos como o maior
desafio automobilístico sobre o asfalto do planeta. Na estréia
de "Curvas do Mundo", analisaremos uma de suas variantes
mais famosas e peculiares: a Karussell.
Detalhes sobre o circuito e sua história serão revelados
em uma matéria especial, a ser publicada no Mulsanne em um
futuro próximo. Por enquanto, basta dizer que Nordschleife
agrega uma aura mítica cada vez maior – alimentada
tanto por sonhadores como por quem já teve a oportunidade
de contornar os seus mistérios. E aqui temos somente um dos
motivos para tanta exaltação e contemplação.
Na verdade,
a curva em questão possui nome e sobrenome: Caracciola-Karussell.
Há alguns bons motivos para este merecido batizado.
O
piloto alemão Rudolf Caracciola foi o vencedor da primeira
edição do Grand Prix da Alemanha, em
1926. A prova foi disputada no igualmente lendário
circuito de Avus, sob chuva muito intensa. Caracciola, na
época vendedor de uma agência da Daimler-Benz
em Dresden, se inscreveu como um competidor privado e faturou
os louros da vitória. Foi do anonimato ao sucesso de
maneira quase que instantânea.
Sua
pilotagem suave, além de sua habilidade em péssimas
condições climáticas, tornaram-se sua
marca registrada ao longo dos anos.
Em
1934, o Grand Prix alemão já era disputado
em Nürburgring Nordschleife. Após perseguição
implacável ao líder Hans Stuck, "Rudi"
executou uma ultrapassagem ousadíssima na curva Karussell.
O público, sempre presente nesta variante por causa
do ponto de vista privilegiado, vibrou freneticamente. Para
o orgulho e propaganda dos políticos nazistas, tratava-se
de um duelo "doméstico" entre as equipes:
um Mercedes W25 superando um Auto Union Type-A.
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(
clique sobre a imagem para ampliar )
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Uma
volta depois, Caracciola abandonaria a prova com problemas em seu
propulsor. A Stuck, coube a façanha de conquistar a primeira
vitória da Auto Union, uma grande festa. Assim, tivemos dois
grandes feitos no dia quinze de julho de 1934.
Em
tempo: há mais um fator para o batizado da curva, e creio
que seja o mais importante. Mas guardarei a surpresa para um pouco
mais adiante!
O
Caracciola-Karussell é um grampo de 270 graus. Localiza-se
pouco após a metade do percurso, no décimo terceiro
quilômetro, em sua configuração pré-1970.
Clique
aqui para abrir o mapa do circuito nesta versão. Ele
faz a ligação entre um trecho de altíssima
velocidade (de Bergwerk a Klostertal, pintado de verde no mapa)
e um longo trecho de média velocidade, com topografia bastante
dramática e desafiadora (Hohe Acht a Galgenkopf, pintado
de amarelo).
A
curva em si não representaria máxima prioridade em
uma volta rápida, justamente por sua característica
de baixa velocidade. Mas ela possui peculiaridades que a transformam
num desafio intrigante, podendo-se ganhar ou perder mais tempo que
o usual. Primeiramente, o ponto de frenagem se dá em um trecho
sinuoso, trazendo muitas dificuldades para quem não compreende
a trajetória ideal. Em segundo lugar, sua entrada é
quase totalmente cega.

E por fim, o elemento que faz a diferença em relação
às variantes "comuns": a famosa valeta inclinada,
feita de placas de concreto, e que acompanha toda sua trajetória
pelo lado de dentro. Originalmente foi construída com o fim
de drenagem em caso de chuva, mas Rudolf Caracciola descobriu que
sua geometria oferecia uma alternativa mais veloz para o contorno
da curva. E esse é o terceiro e mais importante motivo para
a Karussell ser batizada com seu sobrenome.
O
autódromo sofreu sucessivas reformas a partir de 1970, com
o fim de se melhorar os níveis de segurança. Foram
instalados guard-rails, a topografia foi suavizada, e o traçado
ficou mais retilíneo – incluindo o trecho que antecede
a tangência da Karussell.
Abaixo
temos ela representada em sua configuração original,
ou seja, até 1969. Note: a ilustração é
apenas uma representação, sem intenção
de precisão absoluta. Agora, aperte seus cintos: vamos explorar
alguns de seus desafios!
Ilustração:
Juliano "Kowalski" Barata - site Mulsanne
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Estamos
cerca de meio quilômetro acima do nível do
mar. Saindo da curva de quase 180 graus em Klostertal (1),
inicia-se um trecho de aproximadamente 250 metros de aceleração
plena.
É
possível manter uma trajetória praticamente
retilínea nos "esses" (2) que antecedem
o Caracciola-Karussell, mas deve-se atentar ao ponto de
frenagem, que se altera de acordo com o equipamento e as
condições climáticas. Veja
nesta foto Dan Gurney rumo aos "esses", sob
chuva torrencial em 1968.
De maneira
geral, a freada inicia-se pouco depois do ponto 2, e é
imprescindível que o carro já esteja na trajetória
ideal, para se efetuar a redução em linha
reta e mergulhar corretamente na parte inclinada. Não
é possível enxergar a valeta até a
poucos metros de se adentrá-la, por causa da topografia
do local. Por isso a entrada da variante é seu ponto
mais desafiador.
Note
na floresta externa à curva uma árvore destacada,
com cor mais clara: este é o ponto aproximado do
alto pinheiro que Juan Manual Fangio supostamente utilizava
como referência.
Uma
vez "a bordo" da valeta, não há
outra alternativa senão manter a velocidade e o ângulo
de esterçamento constantes enquanto se contorna seus
270 graus: a largura das placas de concreto é pouco
maior que a de um carro. Nesta
foto, tirada há poucos anos, é possível
ver perfeitamente o desenho da variante e o perfil da valeta.
Algo
muito comentado entre os pilotos é o profundo desconforto
causado pela irregularidade das placas de concreto, agravado
pelas forças G que empurram o assoalho rumo ao chão.
Nesta
fotografia é possível verificar a inclinação
dessas placas em relação ao asfalto. Não
é preciso muito estudo para se concluir que o carro
sofrerá um desequilíbrio dinâmico grave,
se escorregar em velocidade para fora da valeta. Nesse caso,
a perda de tempo torna-se a menor das preocupações.
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A
saída da curva (4) é infinitamente mais fácil
que a entrada. A transição de volta para o asfalto
ocorre naturalmente, sem pontos cegos ou degraus radicais. Imediatamente
após o fim da valeta, inicia-se a tomada de uma suave curva
à direita, com o pé embaixo. E após uma variante
veloz à esquerda, que já não aparece na imagem,
começa um dos trechos mais desafiadores do circuito, com
topografia desumana e vários pontos cegos. Mas isso é
conversa para outro dia.
Espero que tenham
gostado da carona. Daremos muitas voltas em circuitos pelo mundo
com vocês, escolhendo sempre uma curva em especial para degustação.
Até a próxima! |