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Causos do Mulsanne: A mais de duzentos por hora!

Foi a primeira vez. Dizem que é inesquecível. Vamos relembrar este momento juntos?

Texto: Juliano "Kowalski" Barata - Foto: arte sobre fotografias de Michael MTS & Bubyrey

Mil novecentos e noventa e quatro. O ano do adieu, Ayrton. Foi a primeira vez em que estive a bordo de um importado de alto luxo. O Audi A8 tinha acabado de ser lançado na Alemanha, e o pai de um amigo já estava com uma unidade na garagem, fresquinha, recém-importada da Europa. Modelo over the top, completa de opcionais. Oito cilindros, tração integral, estrutura de alumínio (a famosa D2), e um design inacreditavelmente sóbrio. A pintura negra o tornava praticamente invisível, tamanha a sua discrição – apesar do enorme porte.

A estrada nos aguardava, o destino era uma casa que a família possuía no interior de São Paulo. Quando saímos da residência dele, o sol nem tinha nascido direito. Aquela coisa de dar um tapa na nuca do galo, que acorda assustado imaginando ter perdido o horário, e começa a cantar.

Como disse, o A8 era imenso, mas foi feito para passar despercebido. E esta foi a nossa reação. Entramos no sedan sem delongas nem grandes reverências. Quando as portas se fecharam, me senti dentro de uma embalagem fechada a vácuo: os passarinhos que cantavam no jardim simplesmente emudeceram. Foram extraídos do cenário. Piu-piu, *delete*, silêncio. O motor mal fazia barulho, sequer transmitia vibração para os passageiros. Parecia estar desligado.

Um lugar perfeito pra tirar um cochilo. Ah, e quanto espaço! Levemente intoxicado pelo sono, eu estava viajando no banco de trás, muito mais no sentido abstrato que literal. Pensando no almoço, na mulherada, nos alinhamentos de grid esquisitos sem o Senna, e mais um monte de bobagens aleatórias e abstratas enquanto me encontrava hipnotizado pela paisagem púrpura iluminada por parcos raios solares.

Lembro que no meio dessa viagem psicodélica, escutei uma voz muito distante, praticamente do além, dizendo pausadamente “...vamos apertar o ritmo um pouquinho? Todo mundo de cinto?”. Sim, todos estavam. Desde pequeno meu pai me educou a usá-lo, mesmo quando ainda não era obrigatório por lei.

E foi só isso. Voltei ao mundo da lua naturalmente, automatizado. Meio dormindo, meio acordado.

Dada altura do campeonato, notei que as faixas que demarcavam a pista estavam passando bem rápido. Com uma serenidade quase esnobe, saí da Terra do Nunca, tirei os olhos da paisagem, virei o pescoço lentamente e dei uma espichada no painel. Lembro-me até hoje daquele ponteirão marcando duzentos e trinta e poucos quilômetros por hora, e da minha silenciosa reação, que se resumiu a um par de sobrancelhas levantadas ao máximo, e um olhar fixo pra frente. Tentando captar e guardar a sensação de estar a bem mais de duzentos.

"Uau! E aí, como foi?" você me pergunta.

Uau, uma ova! Afinal, que sensação?! Estávamos hermeticamente isolados do mundo, com o luxo e a eficiência do Audi A8. Não tinha barulho de pneu, de vento, de motor. Nada de vibrações nem aquela sensação “leve” de sustentação aerodinâmica. Era tudo muito estável, silencioso, confortável, e a música erudita que tocava ao fundo tranqüilizava ainda mais, a ponto de sedar praticamente qualquer sentimento de emoção. Naquela estrada larga e sem nenhum carro adiante, as referências eram vagas senão ausentes, como se estivéssemos à deriva no espaço sideral.

O passeio veloz durou cerca de dez minutos, talvez um pouco menos. Quando avistou um automóvel adiante, o piloto do Boeing 747, digo, do Audi A8, diminuiu o ritmo até a velocidade regulamentada. Pouco depois, eu acabei adormecendo naquela poltrona cheirosa de couro, dotada de um espaço para as pernas dos passageiros de trás que eu ainda não vi igual. Saí de lá zero quilômetro. Com aquela qualidade de vida a bordo, é fácil ficar zen, calmo e sorridente. Atravesse a cidade em um popular peladão de opcionais, e enlouqueça com o calor, o barulho, e a falta de respeito de quem está à sua volta. Ninguém é louco de fechar uma Ferrari, mas trancar um Uno está valendo, não é mesmo? Em tese, somos todos iguais.

"Ser campeão do mundo não muda nada na sua vida, você acorda no outro dia com fome, com dor de barriga, peida, caga..." Nelson Piquet, sobre a conquista de seu primeiro título, em 1981.

E that's all, folks. Foi essa a sensação de estar a duzentos e trinta quilômetros por hora. Hermeticamente lacrada, esterilizada, praticamente tediosa. Eu sei que vocês esperavam mais. Eu também. Mas o que eu posso fazer? Quando vi, já estava lá a 230, e foi sem graça pacas. Olhando por outra ótica, os engenheiros da Audi pensaram em conforto e eficiência, e atingiram o máximo possível da época, tenho certeza.

Algumas horas mais tarde, estávamos descendo de bicicleta uma quilométrica ladeira que contornava um campo de golfe. Três moleques inconseqüentes fazendo bobagem, como manda o figurino. Não lembro a velocidade (e ela tinha velocímetro!), mas minhas mãos começam a suar só de lembrar aquele pneuzinho da frente tremendo feito recruta no meio da guerra, as árvores passando a centímetros de nós, e um vento que mal permitia aos meus olhos ficarem abertos. Pra você ter uma idéia da maluquice, eu quase caí em um riacho, simplemente porque não consegui contornar uma reta torta (como diz o Galvão) que antecedia uma ponte. Quase morri, mas todo mundo deu risada. Bons tempos.

Quatorze anos depois, relembrar daquele dia me faz pensar no caso das três famílias paquistanesas, que apresentavam alguns entes incapazes de sentir dor. O motivo era uma mutação no gene SCN9A, responsável por produzir uma proteína encontrada nos neurônios que captam e emitem os sinais de dor.

Estar a mais de 200 por hora e não sentir nada é potencialmente perigoso. Vibrações, barulhos do vento, dos pneus e do motor, e outros sinais táteis são mensagens físicas de que estamos indo rápido, e despertam um alerta correspondente em nosso organismo. Trata-se de um problema sem solução, pois quanto mais eficientes os automóveis, menores serão estes sintomas. A vinda dos silenciosos carros elétricos poderá trazer conseqüências inesperadas, para os motoristas e para os pedestres distraídos.


 


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