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Causos do Mulsanne: A primeira vez é inesquecível
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Não
é Mustang nem é cor-de-sangue. Serve um Maverick cor-de-champagne?
| Texto:
Juliano "Kowalski" Barata - Foto: arte sobre imagem
da RS Automóveis Antigos |
O
sol está se pondo nesta tarde gelada de inverno, e o clima
bucólico me lembrou uma ocasião muito especial. É
amigos, o tempo passa como uma madame esnobe, não espera
por ninguém. Algumas primaveras já se passaram desde
a minha primeira experiência com um V8 do tipo american
muscle.
Foi
lá na Suspentécnica. Era um lindo Maverick LDO V8
302, devia ser 78 ou 79, cor champagne. Estava à venda, e
eu queria e, felizmente, podia comprá-lo. Naquela época
não tinha essa loucura de especulação. Os preços
eram pautados pelo bom senso. O interior estava descaracterizado
na cor preta, equipado com bancos de Tempra forrados em couro, bastante
anatômicos. Lembro que ele calçava rodas cruz-de-malta,
acessório de época que remetia às corridas
da antiga categoria Divisão 1.
A
quem olhasse de fora talvez fosse só um Corcel anabolizado,
pintado em um tom cafona de dourado claro, mas não pra mim.
Aos meus olhos, aquilo era adrenalina materializada, rebeldia vintage
sem causa, um James Dean de lata, borracha e couro. E isso era o
que importava.

Uma
belíssima tarde ensolarada de outono, aquele friozinho bacana
temperado com um morno sol alaranjado. Nada de trânsito nas
ruas da Vila Olímpia. Conspiração perfeita.
Entendeu? Coisa de sonho, uma experiência inesquecível
logo adiante. A sensação de pegar na gelada maçaneta
cromada, o cheiro de couro e vinil envelhecido do interior, aquele
fino volante de quatro raios dos últimos Maverick... e tudo
mais.
Mas
nada foi tão marcante quanto acordar a fera: torci a chave,
clic! E o motor de arranque girou pesado, um Mike Tyson em serviço.
Após algum estímulo com o acelerador, o propulsor
V8 de cinco litros acordou como um leão enraivecido, um verdadeiro
rugido. BBBRROOooowwmmm!! B-b-b-b-b-b-b..! A marcha lenta
parecia uma horda de bárbaros sedentos por sangue, só
aguardando o sinal de ataque.
Se
você nunca dirigiu um V8 desses na vida, não sabe o
que é essa coisa de um automóvel de 30 anos intimidá-lo
antes da primeira volta. Tem gente que chega a tremer, como pude
testemunhar anos depois com meus próprios olhos. Ainda estou
para conhecer o ser humano que não sentiu algo parecido com
o primeiro passeio a cavalo nesta experiência insólita.
E assim foi comigo, agradavelmente esquisito.
Os carros atuais passam uma sensação esterilizada.
Com as velharias, o feeling é mais biológico,
visceral. Difícil de explicar, fácil de entender.
Naquele
dia, algumas lições foram aprendidas de pronto: primeiro,
que a caixa de direção do Maverick era uma pedra de
dura. “Melhora se trocar os pneus”, o dono disse enquanto
eu suava a cântaros pra tirar a máquina do pátio
da Suspentécnica. E é verdade. Mas continuaria um
pedregulho. Já dirigi outros Ford Maverick desde então
– alguns com pneus brilhando de novos. E quanto mais largos,
mais músculos serão necessários. Mais cáster
então, vixe maria. Direção hidráulica?
Descarte, passe pra frente, ela não transmite road feel
algum, um perigo. O negócio é ter muque e manobrar
o bicho no braço mesmo. Hunf, hunf, hunf !!!

Segunda
lição, torque: esqueça aqueles números
astronômicos de capa de revista, o que vai te levar pra frente
na saída de curva é o torque do motor. Na gíria
popular, é a pegada, a chicotada, o quebrador de pescoços.
O mavecão cor-de-champagne devia estar fazendo seus 0 a 100
em nove ou dez segundos, mas qualquer retomada era estupidamente
empolgante. E o rugido do vê-oitão agia como o capeta
sussurrando no ouvido “pisa mais fundo, moleque!!!”.
Um pouco mais de veneno para dar alguma potência de pico,
e aquele Ford seria um canhão. Com um diferencial mais curto
então, seria um atentado aos bons modos.
A
última lição do dia foram os freios, lição
esta aprendida na marra – após uma esticadinha que
nos levou a mais de cem por hora em uma avenida próxima à
Marginal Pinheiros. Frear um muscle não é
tarefa para menininhas, o nome já diz tudo. Para brecar,
precisa de perna, de atitude. Claro que não estou falando
sobre dar uma marretada no pedal – deixe os movimentos bruscos
e dramáticos para a turma de Hollywood. O que quero dizer
é, a pressão necessária para convencer as pinças
a fazer alguma coisa é grande. Quer saber como é?
Você
tira o pé do acelerador, e apóia no pedal do meio.
Aplica força e... não, um pouco mais de força...
e, mais força... não, realmente um bom bocado
de força. Isso é o suficiente. Para começar
a frear.
Daí,
quem está acostumado com carros atuais estranha duas vezes:
a primeira é quando senta o traseiro no banco do motorista
do antigo. Tudo é meio duro de acionar, nada é exatamente
ergonômico, vibrações, barulhos, aquela visão
completa do capô, até o cheiro é peculiar. O
segundo estranhamento é quando se volta ao carro atual. Daí
tudo parece leve demais, tal como aquele treinamento de boxe no
qual o pugilista soca por vários minutos segurando anilhas,
e depois faz os mesmos movimentos sem elas. Uma pluma, espuma, chantilly!
A sensação “de plástico” que todo
mundo reclama é real, bem como a sólida impressão
sobre o quanto a engenharia evoluiu nos últimos trinta anos.
Particularmente no que se refere aos projetos de suspensão,
nessa área a coisa realmente foi pra frente.
Mas
nisso, eu tenho um outro causo muito bom guardado. Fica pra próxima.
Ah,
se eu comprei o Maverick? Por muito pouco. Depois de guiar um Dodge
Charger, senti que este era mais a minha cara. Nada a ver com ser
melhor ou pior, questão de gosto mesmo. Quando
reencontrei o LDO alguns anos depois, na loja do Romeu Siciliano,
deu uma emoção bonita. Nos reconhecemos. Estes carros
têm mesmo alma. Quem não gosta não entende.
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