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A Bordo da História – Renault 4L

Espartano, carismático e robusto: conheça o "Quatrelle",
o maior sucesso de vendas da história do fabricante francês!

Texto e fotos: Juliano "Kowalski" Barata

Baixo custo, simplicidade mecânica, robustez e carisma são os quatro principais elementos necessários para que um automóvel se torne um grande sucesso de popularidade em qualquer lugar do mundo. Pense nos maiores triunfos de vendas automotivas globais, e o quatrilho de características estará presente: Ford T, Volkswagen Fusca... e o Renault 4L, o terceiro carro mais vendido da história, com cerca de 8 milhões de unidades distribuídas em mais de cem países!


Renault 4L: supera qualquer obstáculo!

Produzido entre 1951 e 1993 (!), o “Quatrelle” foi fabricado em diversas localidades além da França, como na Espanha, Portugal, Argentina e Iugoslávia. Seus principais rivais de mercado eram os sedans da DKW e VW, o Morris Minor, o Fiat 600, e principalmente o conterrâneo Citroën 2CV, lançado em 1948.

Curiosamente, este modelo mundialmente popular é um caso quase underground no Brasil até hoje, pois jamais esteve disponível ao consumidor final por aqui – salvo em casos de importações particulares. Aos brasileiros, o fabricante de origem francesa ofereceu outros automóveis, como o 4CV, antecessor do 4L e conhecido por aqui como “Rabo Quente” devido ao posicionamento do motor na traseira.

Por sinal, o Quatrelle aproveitou o mesmo propulsor de quatro cilindros em linha do 4CV; mas instalado na porção frontal do veículo, juntamente com o conjunto de transmissão às rodas motrizes, fazendo dele o primeiro Renault com tração dianteira. A principal vantagem dinâmica desta configuração é a maior controlabilidade em superfícies com pouca aderência, como asfalto molhado, lama e neve.

Alguém pode-se perguntar qual a relevância disso em um automóvel do tipo popular. E aí entra um aspecto muito interessante do 4L: suas características estruturais e mecânicas, acidentalmente ou não, favoreceram a sua utilização em Rallyes. Podemos separá-las em três categorias: baixo peso (inferior a 700 quilos), grande ângulo de ataque e saída, e um longo curso de suspensão.

Motor 4 cilindros do R4 ou Quatrelle: semelhante ao propulsor do 4CV
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Aprofundemos elas em detalhe: os finos vidros laterais não abrem na vertical. São deslizantes, lembrando carros de competição, barateando o custo de produção e reduzindo o peso – pois qualquer conjunto de máquinas de vidros agrega facilmente vários quilos à carroceria. É o mesmo caso do interior, bastante espartano e praticamente desprovido de isolamento termoacústico. A lataria, por sua vez, é composta por finíssimas chapas de aço, de peso tão reduzido que muitos confundem o material com fibra de vidro ao manusearem as portas.

Entre-eixos igual ao Bugatti 35 e a Ferrari 250 GT Short Wheelbase SWB
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Talvez com o fim de beneficiar sua utilização em campos e vias não-asfaltadas, o 4L possui não somente o assoalho, mas também as extremidades frontal e traseira da carroceria bastante altas e recolhidas. Com isso, os ângulos de ataque e saída são bastante generosos, possibilitando que este Renault prossiga em terrenos onde até mesmo caminhar seria dificultoso.

De qualquer forma, isso não seria possível sem um curso de suspensão longo: as rodas motrizes precisam estar em contato com o terreno para tracionar e o carro mover-se adiante. E como poderia se supor, esta é uma característica presente no 4L.

Este Renault ainda apresenta mais duas curiosidades: primeiramente e tal como no Citroën 2CV, a alavanca de câmbio localiza-se no painel, permitindo assentos dianteiros largos e trocas de marchas cômodas, com pouco deslocamento da mão direita em relação ao volante. Mas isso não se compara ao intrigante entre-eixos assimétrico deste veículo.

Exatamente. As distâncias entre o centro das rodas dianteiras e traseiras medem 2,40m do lado direito (mesma medida do Bugatti 35 e da Ferrari 250 GT short wheelbase), e 2,45m do lado esquerdo. Não se trata de um exotismo gratuito: colocar os braços arrastados da suspensão traseira em planos diferentes foi a melhor solução encontrada pelos engenheiros para conseguir acomodar o conjunto. A estabilidade direcional não foi prejudicada, ainda que o diâmetro de giro possivelmente seja influenciado por esta diferença.

O 4L possui admiradores em todo mundo. A exemplo do Fusca e do 2CV, tornou-se um ícone cult pelo seu estilo, popularidade e longevidade. Mas nem só de olhares carismáticos este Renault sobrevive: oficinas especializadas como a inglesa Renospeed restauram e preparam diversos componentes, da estrutura ao conjunto motriz. Nos exemplares mais nervosos, a potência é triplicada, e o torque aumenta em mais de duas vezes – disponível desde a mesma faixa de rotações do propulsor original. O resultado é um lobo em pele de cordeiro que pode atingir velocidades superiores a 200 quilômetros por hora!


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