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A Bordo da História – Alfa Giulia 1300 Super
Dar
continuidade a uma série tão maravilhosa como a Giulietta
poderia ter sido um
fardo e tanto. Mas as Giulia tiraram de letra a missão, e
se tornaram igualmente históricas.
| Texto
e fotos: Juliano "Kowalski" Barata |
Quase
um século. Poucos fabricantes de automóveis possuem
um legado mais longevo e vitorioso que a Anonima Lombarda Fabbrica
Automobili, ou simplesmente Alfa – e posteriormente Alfa Romeo,
nome adotado alguns anos após o comando do engenheiro Nicola
Romeo na direção da empresa, em 1916. Ela superou
a miséria que assolou a Europa após as duas grandes
guerras, forneceu os carros que deram glórias a nomes como
Enzo Ferrari, Tazio Nuvolari e Juan Manuel Fangio, e ainda conseguiu
manter intacta ao longo das décadas a veia de sua essência,
o Cuore Sportivo.
É
uma marca tão tradicional, e ao mesmo tempo, tão avant-garde
em termos de engenharia, justamente por ter suas raízes profundamente
fincadas no automobilismo mundial.

A
Giulia 1300, modelo que estrela nesta matéria do Mulsanne,
é um ótimo exemplo desta conciliação.
Foi lançada oficialmente no autódromo de Monza no
dia 27 de junho de 1962, com uma missão: dar continuidade
ao sucesso da belíssima série anterior Giulietta –
considerada pelos aficionados como aquela que deu projeção
mundial ao fabricante, que vivia sob a sombra dos tempos escassos
do pós-guerra. A nova carroceria desenhada por Giugiaro e
Bertone, vincada, com volumes pronunciados e um quê de familiar
saloon, escondia muitas supresas técnicas embarcadas,
desenvolvidas ao longo de décadas de competições.
Um desavisado fatalmente se surpreenderia com o avanço tecnológico
desta berlina, como os italianos chamam os sedans.
| O
projeto do motor é um espetáculo por si só,
principalmente o seu cabeçote. Feito de alumínio,
comporta duplo comando de válvulas e possui câmaras
de combustão com desenho hemisférico, o que
garante um ótimo aproveitamento de fluxo, além
de algumas vantagens térmicas.
Não
bastando isso, as válvulas de escape são ocas,
arrefecidas com sódio em seu interior – responsável
por uma eficiente troca de calor ao se liquefazer com a temperatura
e migrar com a movimentação reciprocante (vai-e-vem)
das peças. É uma tecnologia que foi desenvolvida
nos aviões de combate da segunda guerra mundial.
O
bloco também é composto de alumínio,
resultando em um propulsor leve e assegurando uma excelente
distribuição de peso entre os eixos.
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É
difícil encontrar algo criticável. O eixo rígido
que sustenta a suspensão traseira é compacto sem deixar
de ser robusto, representando uma massa não-suspensa relativamente
baixa. O efeito prático é que a aderência dos
pneus traseiros é satisfatória mesmo em pisos irregulares,
onde normalmente os eixos rígidos tendem a pular muito. Os
freios são excelentes, com sistema a disco nas quatro rodas,
garantindo um poder de frenagem muito bom e com pouca tendência
ao fading por superaquecimento de fluido.
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Até
mesmo o design aparentemente antiquado e quadrado da carroceria
possui suas artimanhas: olhando com atenção,
pode-se notar como o pára-brisa é inclinado
e abaulado. A borda frontal do capô é arredondada,
e o teto possui uma saliência próxima ao vidro
traseiro. Tudo isso se resume em um coeficiente aerodinâmico
de apenas 0.34, mais eficiente uma Ferrari Testarossa e similar
à F-40!
A
Giulia é uma masterpiece da engenharia automotiva.
Todas estas características citadas, aliadas a um preço
racional, explicam seu sucesso e versatilidade como carro
de família, de polícia e de corridas –
inclusive no Brasil, com pilotos do calibre de Sidney Cardoso,
Emílio Zambello e Piero Gancia ao volante da versão
preparada Ti Super.
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A
Ti Super era uma variante para competições da Giulia,
facilmente identificada pelo tradicional quadrifoglio,
o trevo de quatro folhas, presente nos paralamas dianteiros. Ela
potencializava as características do projeto original ao
apresentar dupla carburação Weber 45DCOE (tal como
os Simca Abarth 1300 de corrida), carroceria feita com chapas de
aço mais finas, janelas das portas traseiras de acrílico
e ausência de isolamento termoacústico. Estas modificações
garantiram uma redução massiva de 200 quilos de massa
do automóvel. E menos peso significa mais desempenho e fadiga
menor de todo o conjunto.
O
que talvez deixe a desejar nesta geração de Alfas
é a proteção contra corrosão deficiente,
e a tendência ao desgaste prematuro dos anéis sincronizadores
– principalmente nas marchas de torque. Não é
incomum encontrar Giulias e GTVs cujos câmbios dão
aquela micro-arranhada característica quando a segunda marcha
é engatada, ainda que não seja o caso deste modelo
mostrado no Mulsanne.
De
qualquer forma, nada disso desabona este automóvel, um verdadeiro
puro-sangue esculpido com tradição e inovação
aliadas em nome de um bem comum. Agora, chegou a hora de apresentarmos
este belo exemplar Celeste (azul claro), modificado à
moda da época!
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