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Este Ford ainda traz outra surpresa interessante na manga: desde que saiu zero quilômetro da Compania Santo Amaro de Veículos em 1974, por aproximadamente Cr$ 40.000,00 (cerca de R$ 80.000,00) apenas uma proprietária foi responsável pelo automóvel antes de Caio adquirí-lo, em 2001. Quando Stedile soube da originalidade e integridade do GT, fechou negócio antes mesmo do carro ser visto.

Após a aquisição, Caio raspou a pintura do lado externo até a lata, e restaurou alguns poucos pontos de corrosão em locais típicos do Maverick. Depois, repintou a carroceria no tom original Branco Nevasca, conservando a pintura e acabamentos de fábrica no lado interno da tampa do porta-malas e compartimento do motor.

Outro atestado de conservação é um curioso selo presente em um dos cabeçotes do motor, e que contém uma seqüência de dígitos. Segundo o dono da 8 Ball Garage, "esse código é chamado de Assembly, e identifica o 302 completo, ou seja, todo montado e não em partes individuais tais como: cabeçote, bloco e etc; que tinham todos um part number próprio. Haviam dois modelos: o XB287 e o LO287. A difereça entre os dois modelos de motores eram apenas particularidades nos dutos de escape dos cabeçotes."

Note os belos pneus e rodas deste Maverick GT.

Quase tudo neste automóvel é original de fábrica, incluindo seu propulsor, que nunca foi aberto e funciona como um relógio. As excessões podem ser contadas em somente uma mão. O que salta primeiro aos olhos é o conjunto dos enormes pneus Cooper Cobra, dianteiros nas medidas 245/60-14 e traseiros 275/60-15. As rodas, alargadas para 14x9,5 e 15x10, ostentam as calotas originais mas sem os sobre-aros. A caráter de comparação, na época os Maverick GT calçavam diagonais Firestone Wide Oval D70 S14, em rodas 14x6.

Na sequência, destaca-se a saia frontal, um recurso aerodinâmico muito utilizado em carros de turismo dos anos 70, com o fim de se restringir a passagem de ar para o assoalho e também desviar o fluxo das caixas de roda dianteiras. No caso deste Maverick, sua utilização foi uma necessidade, pois as reentrâncias laterais previnem que os largos pneus dianteiros toquem na peça quando o volante é esterçado.

No interior, tudo está intocado: painel, console, conta-giros, dashpad, emblemas e forrações de porta e teto. Os bancos, apesar de não serem os originais da Ford, eram oferecidos como opcionais pela concessionária Santo Amaro. Apresentam a forração central em jérsei, as laterais e porções traseiras em curvim, e são muito confortáveis e anatômicos.

Detalhe customizado do Maverick GT 1974.
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Ao volante em Interlagos

A bandeira quadriculada que havia encerrado a última etapa do campeonato de supercarros GT3 Brasil tinha acabado de tremular no autódromo de Interlagos. Dos boxes, liguei para o Caio, também presente no evento: “e aí, tá pronto para invadir o traçado?”. Na hora, ele não havia entendido a brincadeira, mas a ficha cairia em breve.

Indo em direção ao Ford que estava estacionado junto aos caminhões das equipes, Caio me oferece as chaves: é o tipo de convite que não se deve recusar, sob o risco de arrependimento perpétuo. Longos quatro anos me separam da última vez que conduzi um Maverick, um modelo LDO oito cilindros, na época pertencente a um dos donos da Suspentécnica. Era a oportunidade perfeita para voltar a conduzir um automóvel equipado com o motor 302.

Interior com bancos da Santo Amaro.
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Depois de abrir a porta e inalar o perfume típico de um interior de carro antigo, me instalei nos bancos anatômicos oferecidos pela concessionária Santo Amaro. Ótimo apoio lombar, ótimo apoio lateral; muito mais confortáveis e eficientes que os assentos originais. Com a chave de ignição na mão, procuro inutilmente o contato no painel. O tempo não perdoa ninguém: o tambor encontra-se na coluna de direção. Tsc, tsc...

Dada a partida, o 302 roncou discreto a 600 giros, mas com presença: o silenciador é original de época. Saí sem pressa, o lance era matar as saudades. Este Maverick tem uma integridade estrutural incrível, não faz um barulho: é todo justo, uma delícia de guiar. Ao volante, mal percebe-se a suspensão traseira mais alta, pois está tudo bem acertado e dimensionado.

Descemos a avenida do estacionamento, que na verdade é a saída da Curva do Sol antiga, mais a reta que levava à Curva do Sargento. São restos imortais do traçado original. Depois de fazer um caminho estreito, autorizado somente para fotógrafos e a equipe de suporte do autódromo, chegamos ao local do ensaio.

A palavra que Caio expressou quando nos aproximávamos de lá é impublicável. O fato é, estávamos a apenas quinze metros da segunda perna da Curva do Sol, pelo lado de dentro da variante, e nada nos separava do circuito. Seguindo o bom senso, parei o Ford em ângulos sempre protegidos pelo guard-rail e fora do ponto de vista dos pilotos das outras categorias da FASP, que corriam naquele instante.

Uma curiosidade: no dia anterior e exatamente no mesmo lugar, eu fotografava os Mavericks correndo do lado de dentro da pista; no Campeonato Históricos V8 5000.

Depois de alguns cliques perto da Curva do Sargento, concluído o ensaio e encerrado o dia: já eram quase cinco da tarde. O sol já se encontrava no limite do horizonte. Finito! Ou quase. A vontade era de continuar ali fotografando, guiar mais o Ford... carro antigo é mesmo uma droga viciante.

Por isso, arranjei um pretexto qualquer para voltar outro dia à 8 Ball Garage, ver de novo esse Maverick e tirar mais fotos. Sorte minha e sua, visitante do Mulsanne! Não perca a página de fotos a seguir.

Linhas esportivas do Maverick GT.
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Este reencontro foi também uma boa oportunidade para dar um passeio esportivo com o Caio ao volante, enquanto íamos ao bairro do Sumaré para o local do segundo ensaio fotográfico. Com muitos anos de experiência a bordo dos Ford V8, ele já conhece de antemão o comportamento e os limites do GT; que está bem firme de suspensão, mas sem ser desconfortável aos passageiros. Em ruas sinuosas e totalmente vazias, o Maverick se saiu muito bem – e ainda sobrava um tanto de aderência lateral dos pneus, o que é perfeitamente correto, pois assim tínhamos grip disponível para frenagens e desvios.

O ronco desse 302 é encorpado em baixa, e fica uma maravilha quando se aproxima do giro de potência máxima do comando original, 4600 rotações por minuto. Diga-se de passagem, o motor é bem elástico, e chega lá rapidamente! Quem não gosta dos motores V8, realmente não os entende e não os merece.

Agora sim, a brincadeira estava oficialmente concluída. Com um sorriso de orelha a orelha, saí deste automóvel incrível com uma certeza reforçada: aqueles que defendem a marca do coração como um time de futebol nesta rixa antigomobilista entre Ford, GM e Chrysler; estão perdendo tempo, diversão e a oportunidade de conhecer excelentes carros e fazer novos amigos.


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