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A Bordo da História – Ford Maverick GT 1974
Autódromo
de Interlagos. Não haveria cenário mais propício
para admirar as linhas
esportivas do Maverick GT, um dos carros mais belos produzidos pela
Ford do Brasil.
| Texto
e fotos: Juliano "Kowalski" Barata - Agradecimentos
a 8 Ball Garage (www.8ball.com.br) |
Quando
a Ford decidiu fabricar o Maverick em terras tupiniquins e disponibilizá-lo
com a opção do motor importado 302 V8 no final de
1973, tinha-se uma boa idéia de que este era um conjunto
sólido e equilibrado. Um ótimo produto para enfrentar
a Chrysler e a General Motors, em uma plataforma flexível
o suficiente para atuar em diferentes fatias do mercado. Mas
a história do automobilismo nacional na chamada "segunda
fase" da indústria automotiva mostrou mais do que isso:
o Maverick reservava um excelente potencial para ser um vencedor
nas pistas.
Luiz
Pereira Bueno, Tite Catapani, Alex Dias Ribeiro, Bob Sharp, Paulo
Gomes... estes são apenas alguns dos grandes pilotos que
tiveram glórias memoráveis a bordo do pony car
nas corridas de longa duração; tipo de competição
comum nas categorias brasileiras de turismo dos anos 70. Tamanho
sucesso não era à toa.

Em
primeiro lugar, a estrutura do Ford Maverick V8 era bastante privilegiada
em relação à concorrência. Além
da generosa espessura de chapa, suas longarinas dianteiras e traseiras
eram compridas ao ponto de praticamente se encontrarem sob o assoalho,
assegurando boa rigidez à torção. O resultado
era uma estabilidade razoável da geometria do conjunto de
suspensão e dos pneus em relação ao solo. Não
bastando isso, seu entre-eixos era mais curto que o dos rivais de
época, medindo apenas 2.600 milímetros (algumas publicações
atestam 2,618m). A linha Dodge Dart tinha 2.743 milímetros
separando as rodas dianteiras das traseiras, e o Opala, 2.667mm.
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garantia um momento polar de inércia relativamente
baixo, ou na prática, atitude mais ligeira em trechos
sinuosos e em curvas fechadas. É verdade que isso também
tornava o carro um tanto quanto arisco. E a caixa de direção
excessivamente desmultiplicada (29,4:1 no GT), mais os freios
traseiros com potência excessiva em relação
aos dianteiros, só dificultavam as coisas. Era fácil
um condutor inexperiente perder a traseira do Maverick em
determinadas circunstâncias.
Os
modelos a partir de 1977 ficaram um pouco mais previsíveis
de comportamento dinâmico ao apresentarem o eixo traseiro
Dana 44 com bitola 3,6 centímetros mais larga e tambores
de freio mais curtos em uma polegada, tornando qualquer sobre-esterço
ou frenagem de emergência do automóvel mais controláveis.
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De
maneira geral, o Maverick V8 sempre foi um carro que, nas mãos
certas e com uma suspensão um pouco mais rígida, andava
muito forte.
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Justiça
seja feita: boa parte desse desempenho merece ser atribuído
ao motor 302, uma das heranças mais preciosas da Ford
Motor Company e que sobrevive na variante “5.0L”
até hoje nos Mustang modernos. O 302 é derivado
diretamente do 289, propulsor vitorioso que equipou carros
de competição como o Shelby Cobra, o Mustang
GT-350R e o Ford GT-40.
Trata-se
de um motor compacto, não muito pesado, e que atinge
altas rotações com relativa facilidade, graças
ao largo diâmetro e curso reduzido dos pistões
(101,65mm e 76,2mm). Em contrapartida, sua relação
r/l (0.295) é prejudicada pelo curto comprimento das
bielas (129mm), mas ainda é satisfatória.
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Algo
muito interessante é o fato do 302 ser instalado numa posição
bastante recuada no compartimento do Maverick, assegurando uma boa
distribuição de peso, dentro das limitações
de projeto típicas de um pony/muscle car.
São
todas essas características juntas que formam um pacote com
um ótimo potencial para aplicações de performance:
a história do Maverick no automobilismo brasileiro é
representativa e fala por si só nesse aspecto.
Mas agora, vamos ao que interessa. O que pode ser dito sobre o belo
exemplar que ilustra esta matéria do Mulsanne?
Survivor
Em
bom português, sobrevivente. Este é o adjetivo
utilizado pelos norte-americanos para se descrever um carro antigo
que, mesmo após décadas de uso, manteve sua integridade
intocada. Muitos possuem a pintura um pouco gasta ou o interior
puído, mas são apreciados como um vinho da melhor
safra. São preciosidades cuja beleza é a preservação
histórica, e por isso o valor está em seu estado bruto.
Segue uma direção contrária ao estilo concours,
no qual o automóvel é totalmente restaurado, às
vezes ao nível do exagero.
| O
Maverick GT 1974 do piloto e restaurador Caio Stedile atinge
um curioso estado de conservação, mesclando
a integridade de um survivor com o acabamento brilhante
de um concours. À primeira vista, salta aos
olhos a pintura fresquinha em Branco Nevasca, um tom alvo
que puxa para o creme; quase idêntico ao Wimbledon White
dos Mustang.
Mas
basta abrir o capô ou o porta-malas para se maravilhar
com uma surpresa e tanto. A pintura dos compartimentos internos
deste exemplar ainda é a de fábrica, conservando
em sua superfície quase todos os selos e adesivos originais,
tal como as instruções para o uso do macaco.
É a condição na qual muitos sonham encontrar
o carro antigo dos sonhos, mas poucos conseguem êxito
nessa missão. |

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