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A bordo do Ouro Espanhol
"Vamos
sair para bater as fotos logo, enquanto há luz. Parece que
vai garoar logo mais, também!" disse Alexandre
enquanto tirava o reluzente Chrysler da garagem. Nesse momento,
vi algumas pequenas folhas de árvore repousando sobre a lataria,
que precisariam ser removidas no momento das fotografias.
Abro
a porta do carona e me ajeito no banco anatômico rapidamente.
Logo percebo que os assentos são substancialmente mais baixos
que dos modelos de 1973 em diante, e fornecem ótimo apoio
lombar. São forrados com curvim e jérsei. O couro
era material exclusivo à variante R/T, e não era disponível
nem como opcional aos outros modelos.

Mal
havia me acostumado com os detalhes do interior do Charger e já
precisei me segurar. Badolato saiu pisando fundo nas ruas que levavam
ao local fotográfico escolhido: sim, ele usa muito bem
os carros que restaura e preserva. Sensacional. O motor é
fresquinho, praticamente sem uso após a restauração
e o respectivo amaciamento do comando de válvulas. Há
uma quantidade tão grande de torque que o pescoço
dá uma bela chicoteada quando a segunda marcha é engrenada.
O carburador DFV 446 estava tinindo, muito bem afinado. Não
vacilou com falta ou excesso em nenhum momento.
Os
giros sobem enquanto a paisagem vai passando cada vez mais rápido.
Vejo o belo painel da linha 1971 mostrando serviço a todo
vapor. Foi o último ano que a instrumentação
era realmente completa, com mostradores analógicos de pressão
do óleo e carga do alternador (foram substituídos
por luzes-espia a partir de 1972). É um grande prazer acompanhar
seus ponteiros se movendo conforme o desempenho aumenta.
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A
mecânica do carro foi completamente restaurada nos mínimos
detalhes. Nada foi deixado de lado, nem mesmo o tanque de
gasolina (restaurado pelo grande profissional Nassif), ou
os feixes de mola da suspensão traseira. Tudo no padrão
da fábrica. O resultado é um carro absolutamente
sólido, sem vibrações ou ruídos
de qualquer espécie: ouve-se apenas o ronco borbulhante
dos oito cilindros e o som dos pneus diagonais Firestone Campeão
Supremo abraçando o asfalto.
Os
belíssimos pneumáticos são de época
– e pasmem – cem por cento zero quilômetro,
imaculados: conservam até mesmo os "pelinhos"
em seus flancos e banda de rodagem. Que Chrysler maravilhoso!
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Uma
freada, duas reduções de marcha, e chegamos ao local
das fotos. Operação tipo pit-stop, pois o
tempo estava cada vez mais cinza, cada vez mais com cara de Londres.
Combinamos de tirar uma bateria de fotos ali, e depois deslocar
o carro algumas centenas de metros mais adiante para uma outra bateria.
Lembram-se das folhinhas de árvore na lataria? Não
sobraram muitas após nosso passeio esportivo.
Enquanto
eu batia as fotografias, Alexandre ia explicando os pequenos detalhes
que ainda faltavam ao carro. Coisas mínimas, como antena,
limpadores de pára-brisa, manivelas dos vidros, e pintura
da carcaça do filtro de ar. As lanternas traseiras estavam
em muito bom estado, mas serão substituídas por um
par zero quilômetro. Caprichos merecidos a um automóvel
raro, belo e originalíssimo.
| Tudo
pronto e registrado, hora do Charger voltar a seu lar. Uma
garoa fininha começa a cair. O passeio em velocidade,
se no trajeto de ida foi uma pura questão de prazer,
agora era uma necessidade. A Lei de Murphy ainda aprontou
mais uma com Badolato: "cadê o acionamento
da garagem?". E a garoa ia engrossando. Três
minutos depois, o controle é encontrado e o Chrysler
entra com uma certa pressa.
Ajudo
a enxugar a umidade que repousava sobre a pintura fresquinha.
A principal preocupação estava no teto de vinil,
uma belíssima peça feita com o tecido original
usado pela fábrica. Perguntei se poderia haver problemas
de infiltração por através do vinil.
Alexandre me responde de pronto: "...teoricamente,
não. Mas é bom prevenir!". Então
passamos os panos em quase todo o carro. Uma boa oportunidade
para admirar as linhas clássicas de um Dodge da mais
nobre safra. |

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Alguns
minutinhos mais de conversa, e é hora de se despedir do Charger
ouro espanhol e de seu excêntrico dono. Uma última
olhada para um dos melhores automóveis feitos pela indústria
automobilística brasileira me dá a certeza de que
este carro é enfeitiçador, apaixonante. Quem não
gosta provavelmente é porque não o entende.
No
caminho de volta, pensava sobre o slogan utilizado pela fábrica
em seus anúncios de revista: "critique o american way
of life... dentro deste carro!". Definitivamente, eles sabiam
o que estavam fazendo. E sempre souberam.
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