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A Bordo da História – Dodge Charger 1971

Estado de nobreza absoluta em um exemplar que combina raridade,
integridade, e sorte de ter sido adotado por um apaixonado pela marca.

Texto e fotos: Juliano "Kowalski" Barata - Agradecimentos ao Museu do Dodge (www.museudodge.com)

Pergunte a qualquer fanático que se preze. Se há um carro produzido pela Chrysler do Brasil que merece ser ovacionado e receber o título de Magnum Opus, a grandiosa obra, este é a primeira versão do Dodge Charger: o modelo 1971.

A honra se deve não somente pelo impacto que causou à sociedade e à imprensa especializada quando de seu lançamento, mas também pela criatividade das soluções do design externo, e principalmente, por seu caráter único de obra-prima. Ou seja, o trabalho pioneiro – a essência. Embora equivalentes ou superiores em termos de beleza, os Charger lançados nos anos posteriores eram, de uma forma ou de outra, variações estilísticas do conceito original. Mudanças radicais viriam somente nos últimos dois anos do modelo, mas de maneira geral não causaram o mesmo frisson. A festa já estava acabando.


Dodge Charger LS 1971. Elegância espartana.

Atualmente, todo e qualquer Dodge Charger 1971 é raríssimo – curiosamente, foi o ano de maior produção do automóvel, somando mais de duas mil unidades fabricadas entre suas variantes standard e esportiva. Mas a intensa inflação, a crise do petróleo, e a mente “retrogradamente progressista” do brasileiro de então resultaram na sua aniquilação em massa; processo iniciado ainda na época. Estima-se que menos de 3% dos Charger fabricados naquele ano tenham sobrevivido ao holocausto automobilístico dos últimos vinte e cinco anos!

Ironicamente, as principais vítimas foram os carros de cores de alto impacto, altamente valorizados nos dias atuais, mas que foram subitamente consideradas ridículos e cafonas em dado momento da década de setenta. É curioso perceber como a paleta de cores da Chrysler foi tornando-se cada vez mais sóbria conforme os anos 80 se aproximaram. Não é novidade afirmar que a “ditadura dos tons” dura até hoje no Brasil. Basta ir a qualquer estacionamento e ver um mar monocromático em variações de cinza.

Aproveitando o assunto, vale mencionar que muitas das cores utilizadas pela Chrysler do Brasil tinham seu correspondente na matriz dos Estados Unidos. É o caso do exemplar desta matéria, cuja tonalidade se chama Ouro Espanhol (Y7 na plaqueta), ou Spanish Gold Metallic na versão norte-americana. Trata-se de um pigmento muito elegante, cujas partículas metálicas são bem finas: o resultado é uma cor com profundidade, mas sem a "textura de açúcar" e os típicos contrastes de luz gerados por pinturas metálicas mais comuns.

Dodge Charger LS 1971: Note o acabamento bem feito na funilaria.
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A sobriedade e a elegância sempre foram os traços marcantes da variante standard do Charger, em oposição ao esportivo R/T. O modelo foi batizado oficialmente com o complemento "LS" a partir de 1973, embora já fosse chamado dessa forma desde 1972 pelo staff da fábrica. Antes disso era conhecido somente como "Charger", e é este o modelo mostrado aqui, no Mulsanne.

Trata-se de um exemplar que foi totalmente restaurado, mas que já conservava uma integridade estrutural ímpar antes de ser resgatado pelo colecionador e estudioso da linha Chrysler brasileira, Alexandre Badolato. Nenhuma parte da lataria precisou ser substituída por motivos de corrosão – nem mesmo as caixas de ar; área onde a ferrugem tende a começar seu estrago nos Dodges.

Tanta integridade tem explicação – e das mais curiosas. Este Charger rodou por apenas três anos (ou seja, até 1974), quando sofreu um acidente de proporções pequenas. Após mais de duas décadas encostado em um estacionamento coberto, o carro foi passado a um conhecido do proprietário, que tinha planos de então reformá-lo. Ainda que perfeitamente íntegro, o automóvel necessitava de restauração por estar parado há tanto tempo; o que desestimulou a execução do projeto antes mesmo de seu início. Foi quando Alexandre entrou na história, tornando-se o novo dono deste Dodge, o que permitiu sua restauração ao nível que vemos nas fotografias.

 

Completo e Elitista

Este Chrysler saiu de sua concessionária totalmente recheado de opcionais, o que o torna uma espécie de "R/T de luxo" e eleva ainda mais seu status de nobreza e raridade. Rodas magnum, caixa de direção hidráulica Gemmer, freios dianteiros a disco, ar condicionado, e o conjunto formado por bancos individuais anatômicos mais câmbio de quatro marchas, com console no assoalho, não deixam dúvidas: seu comprador era alguém distinto e com bom gosto.

Tanto luxo e requinte evidentemente não custava barato: o Dodge Charger completo de opcionais, exceto o ar-condicionado, custava Cr$ 37.383,00 em maio de 1971; valor equivalente a aproximadamente 115 mil reais na atualidade.

Era um automóvel para poucos. Como Jan Balder e Heitor Feitosa afirmaram na época, em avaliação à revista Auto Esporte, o Charger "nasceu para ser um carro esnobe e representativo". A julgar pela interminável lista de opcionais citada anteriormente, é provável que ninguém ouse desmerecer a sentença frente a este exemplar...

Dodge Charger 71: portas abertas.
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