| Direto
ao assunto
Os
três primeiros minutos da perseguição compõem
um tenso prelúdio. O carro de Frank Bullitt (Mustang Fastback)
é silenciosamente seguido pelo bólido dos assassinos
(Dodge Charger). Estes sequer desconfiavam de que o policial já
havia notado sua presença, e estavam confiantes de sua discrição.
Ambos estão em velocidade de trânsito normal.
Subitamente,
o Mustang desaparece de vista em uma sequência de esquinas.
Os capangas o procuram a cada quarteirão sem sucesso, e frente
a uma encruzilhada, decidem intuitivamente subir uma ladeira. Após
alguns instantes de busca, o carro de Bullitt reaparece... mas atrás
do Charger! A cena é mostrada pelo espelho retrovisor interno
dos vilões.
Os
caçadores viraram caça, e a confiança reduz-se
em angústia num segundo. A música de suspense, de
Lalo Schifrin, é perfeitamente sincronizada com as imagens,
elevando toda esta sequência ao status de um cult
policial.
O
momento da inversão: bingo!
Tensão
máxima. Num semáforo de conversão à
esquerda, Frank Bullitt pára seu carro exatamente atrás
dos vilões. E então, uma imagem clássica: o
close das mãos de Phill (Bill Hickman) apertando os cintos
sub-abdominais do Dodge, uma indireta de que o clima vai esquentar.
A
cena seguinte marca o fim do prelúdio e o início da
perseguição de fato: uma arrancada fortíssima
do Charger ladeira acima, dilacerando em fumaça os pobres
pneus diagonais por dezenas de metros; surpreendendo McQueen, que
não deixa barato e vai atrás dos capangas, acelerando
fundo.
No
instante em que o Dodge acelera brutalmente, a música de
suspense é bruscamente interrompida, introduzindo uma seqüência
que prima por um realismo visceral. Não há diálogos,
trilha sonora, ou qualquer outro elemento que distraia a imersão
quase hipnótica do espectador na experiência da perseguição.
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É possível sentir e compartilhar
a concentração dos protagonistas em cada segundo.
Seja nos pulos fenomenais dos carros nas rampas de São
Francisco, nos desvios perigosíssimos, nas curvas executadas
com derrapagem controlada, ou no momento em que deixam a cidade
e partem em direção à estrada em alta
velocidade. Tudo isso sem efeitos pirotécnicos nem
manobras fisicamente impossíveis.
Definitivamente,
Steve McQueen, Peter Yates e Carey Loftin sabiam o que estavam
fazendo. É uma experiência incrível mesmo
após quase quarenta anos, e sem dúvida, copiada
até os dias de hoje.
Claro,
é possível notar falhas de continuidade e de
produção. Um tal de um Fusca verde aparece e
reaparece várias vezes como figurante na perseguição,
bem como um Pontiac branco. Há as “dez mil calotas
cadentes” do Dodge Charger, que parecem se reproduzir
sozinhas.
Também
há uma única aceleração de película,
na última cena, quando o Mustang de Frank Bullitt perde
o controle após a explosão do carro dos inimigos;
que ao bom observador, erra o posto de gasolina
– suposto catalisador da explosão. E por fim,
alguns acusam que o percurso em si não tem seqüencia
lógica realista em relação à cidade.
Mas nada disso desabona este clássico, não sejamos
tecnocratas sem alça!
Agora,
vamos aos bólidos e seus pilotos!
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